Cansei
Eu estou cansado.
Exausto.
Não durmo direito desde o primeiro turno das eleições. Não importa o quanto eu tente, o quão pouco eu tenha dormido no dia anterior, o quanto eu tenha me cansado física e socialmente: às vezes a insônia resiste até aos meus remédios de dormir.
Acordar pra vida tem um custo muito alto.
E quando o mundo parece estar desabando ao meu redor, as coisas erradas vão ficando cada vez mais difíceis de engolir.
Eu tenho medo. Mas, em especial, tenho ódio.
Uma anedota:
Como bom faficheiro, eu possuo um apego insuportável por astrologia. Minha terapeuta sugeriria remover o “insuportável” da frase, mas me apoiar em esoterismo ocidental e pseudociência ainda é vergonhoso pra mim. Ainda assim, eu gosto de ver sentido nas coisas, como todo ser humano, e me reconhecer (ou não) nas interpretações é extremamente divertido, e muitas vezes também me foi útil.
Na primeira vez que eu fiz o meu mapa astral, coloquei o horário errado de alguma forma e ele me marcou como tendo ascendente em Touro. Quando o Personare me explicou o que isso significava, aquilo fez algum sentido pra mim.
Eu gosto da ideia dos signos de terra. Pé no chão, praticidade e paciência são virtudes queridas. E o ascendente em Touro era mais uma reafirmação de que eu sou TÃO assim que precisaram me avisar duas vezes. Foi numa situação dessas que eu ouvi pela primeira vez na vida que eu sou cabeça dura, e como bom cabeça dura eu demorei muito tempo pra aceitar que era verdade.
Não tanto tempo depois, alguém fez o meu mapa astral pra mim e descobriu que meu ascendente, na verdade, era em Áries. Eu passei alguns meses rejeitando essa ideia. Pra quem nunca foi meio tilelê: nesses círculos, astrologia era (é?) extremamente relevante. Na verdade, era muito difícil interagir com as pessoas ao meu redor sem levar isso em consideração. Então minha rejeição foi bem ativa.
Sentir que eu tinha vivido uma mentira já era ruim o suficiente, mas o signo de Áries representava muitas coisas com que eu não queria ser associado. Era o impulsivo, briguento, egoísta. O que fala alto e ocupa espaço demais. Eu não gostava muito dessas pessoas. Tinha passado a vida achando que gente sensata não era assim e que o certo era esperar, ceder, engolir. Não à toa me agarrei ao ascendente em Touro com tanta força.
Mas eu descobri que no fundo dessa aversão morava um pouco de inveja.
Claro, não da parte de brigar e gritar com os outros (essa eu continuo dispensando). Mas essas pessoas pediam o que queriam. Discordavam na hora, sem passar uma semana remoendo a resposta que deveriam ter dado. Deixavam os próprios limites bem claros e reagiam rápido quando eles eram ultrapassados. Ocupavam o espaço, não ficavam nos cantos. Elas eram vistas, ouvidas e muitas vezes respeitadas.
Eu sempre achei que gostava de ser invisível. Não chamar atenção é muito confortável. Ninguém te cobra, ninguém te critica, ninguém espera nada de você…
Ninguém espera nada de você.
Não sei como vivi tanto tempo achando que isso era uma coisa boa.
Também penso nas inúmeras vezes em que esse apagamento de mim mesmo permitiu que as pessoas passassem por cima de mim e das minhas vontades. Permitiu que me desrespeitassem em voz alta enquanto eu só ouvia e guardava o incômodo pra mim. Permitiu comentários sobre meu corpo e minha aparência que ninguém deveria ter coragem de fazer a ninguém. Permitiu que eu ficasse calado diante de coisas de que eu discordo e que são importantes demais pra eu deixar passar.
Eu gosto de ser uma pessoa fácil de gostar, e de certa forma tenho orgulho de não ter feito inimigos pelo caminho. Mas acho que em várias situações eu deveria, sim, ter feito alguns. Por que diabos eu quero ser gostado por pessoas que eu mesmo não respeito?
Ter paciência com as pessoas é necessário, mas também é importante reconhecer meus próprios limites e quais lutas valem a pena. E às vezes eu me pergunto o quanto eu realmente sou paciente e o quanto eu só sou medroso. Esperar a hora certa é uma coisa. Esperar até a hora passar é outra. As duas certamente coexistem.
O ódio que eu tenho sentido nas últimas semanas não é novo, mas a intensidade talvez seja. Não estou acostumado a guardar rancor (inclusive é muito fácil eu esquecer como me senti em algumas situações e acabar diminuindo o que aconteceu), e nem acho que seja saudável. Mas reconhecer quando algo está errado e reagir, e talvez até decidir que eu simplesmente odeio alguém que fez algo que eu considero absurdo, hoje em dia já me parece válido.
E não é nem como se eu nunca tivesse brigado. Sempre tive problemas com autoridade, e quem mais sentiu isso foi a minha mãe. Em casa eu discutia, batia o pé e não aceitava ordem sem explicação. Parece que, com o tempo, fui engolindo cada vez mais em troca de ser aceito por uma sociedade que nunca vai me aceitar plenamente. Então talvez a energia sempre estivesse aqui, e eu só usasse onde era seguro.
Só que o mundo não tá seguro, né? Pra gente como eu, nunca esteve, mas fica cada dia mais difícil ignorar. Se a aceitação que eu tentei comprar engolindo nunca vai chegar inteira, eu não sei mais o que eu tô pagando. Essa troca não vale a pena.
E não é só sobre mim. As pessoas que eu amo estão tão cansadas quanto eu, com tanto medo quanto eu. Por mim, eu engoli muita coisa. Por todos nós, não engulo mais (nem que pra isso eu precise finalmente admitir que sou meio ariano).
Ninguém passa por cima de mim e dos meus.
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